Convidado por ANTENNA para se pronunciar a respeito do tema “Restauro e Recuperação”, o dedicado colega e brilhante restaurador Daltro S. D’Arisbo (https://www.facebook.com/daltrosouza.darisbo) gentilmente nos encaminhou o seguinte texto, sobre a arte da restauração:
RESTAURO E RECUPERAÇÃO
O sentido dos verbos restaurar e recuperar, bem como das ações que lhes são atribuídas, são bem distintos no vernáculo.
Em termos amplos, recuperação, como o conserto de receptores antigos, incide numa barafunda gramatical e pode ser origem de verdadeiros objetos que nos assustam: o vulgo e sua linguagem coloquial confundem amiúde os seus significados.
A restauração de um equipamento de rádio, stricto sensu, é a ação ou o conjunto de ações que visam o restabelecimento, a restituição das funções e aparência iniciais do receptor. Tal nos traz a ideia de quando o objeto foi construído. São trabalhos maravilhosos de restauração que alguns poucos dedicam aos rádios, através de um amor platônico, não exclusivamente comercial.
Ora, qual o atributo essencial de um aparelho de rádio? Fazer ouvir o que emitem as emissoras, produzir som audível e inteligível. Apenas estas menções podem nos transmitir uma noção da diferença entre restaurar e recuperar.
Se um rádio deixa de funcionar, temos que recuperá-lo. Porém, isto não significa a uma expressiva maioria, em restaurar as suas condições de fábrica!
O restaurador, guardadas a gramática e o nosso sentido, tem a obrigação em ater-se às condições originais, externas, o gabinete e internas, o esquema de quando o aparelho foi construído, trabalhando com um máximo de habilidade técnica e estética.
Entretanto, é absolutamente aceitável que um proprietário de um receptor exclame “Joaquim ‘restaurou’ o papagaio que era do meu avô; o rádio não falava e agora está bom”. Afora a lembrança de que rádio não fala e sim funciona, pouco importou àquele possuidor se num receptor de 1930 foi posto um diodo retificador ou uma resistência de ferro de passar roupa… Funcionou, está bem! O Joaquim apenas recuperou o aparelho! Evidente e compreensível que haja recuperadores, consertadores, que necessitam dos seus conhecimentos para viver!
O restauro, ao senso dos verdadeiros restauradores, incide em muitas pesquisas, como a história do fabricante, o ano de fabricação, o esquema e o gabinete. Enfim, o resultado deve contemplar a função primordial do receptor ─ recepção dos sinais das emissoras e sua conversão a sons compreensíveis, respeitados ao máximo e aparência externa e os componentes da época.
Como exceção excepcionalíssima, lembramos os casos de impossibilidade comercial ou técnica de uma restauração absoluta, causadas pelo tempo entre a feitura do receptor e a restauração. Como exemplo citamos componentes como baterias, espécies de madeira, pigmentos e fiação, entre tantas.
Enfim, recuperação ─ mera reabilitação, pode apresentar knobs plásticos da Philips em receptores “cathedral” ou “tombstone” do início dos anos 1930, os quais usavam knobs de madeira. Na verdadeira restauração, ações como esta assemelham-se a um abantesma ─ figura fantasmagórica, frankensteiniana.
Assim compreendemos a distinção entre restauro e recuperação. ─ Daltro S. D’Arisbo, janeiro de 2025.
O colega Daltro D’Arisbo, brilhante restaurador e pesquisador, tem razão. Acrescente-se que, com o modismo pelos rádios antigos, todo mundo hoje em dia se intitula “restaurador”. Poucos realmente o são. Não basta a intenção de restaurar. Não basta também possuir alguma habilidade: é preciso pesquisar, conhecer o objeto histórico em profundidade, como funciona, como foi feito, para intentar uma verdadeira restauração.
Sujeira de cupins e ferrugem não transformam um rádio em preciosidade. Sujidade de cupim não confere “autenticidade” ao objeto antigo. Ao contrário, deprecia o equipamento.